terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dívida Interna: perigo à vista

A dívida interna do Brasil, que montava R$ 892,4 bilhões quando Lula assumiu o
governo em 2003, atingiu em 2009 o montante de R$ 1,40 trilhão de reais e,
segundo limites definidos pelo próprio governo, poderá fechar 2010 em R$ 1,73
trilhão de reais, quase o dobro. Crescimento de 94% em oito anos de governo.

Para 2010, segundo Plano Nacional de Financiamento do Tesouro Nacional,
a necessidade bruta de financiamento para a dívida interna será de R$ 359,7
bilhões (12% do PIB), sendo R$ 280,0 bilhões para amortização do principal
vencível em 2010 e R$ 79,7 bilhões somente para pagamento dos juros (economistas
independentes estimam que a conta de juros passará de R$ 160,0 bilhões em 2010).
Ou seja, mais uma vez, o governo, além de não amortizar um centavo da dívida
principal, também não vai pagar os juros. Vai ter que rolar o principal e juros.
E a dívida vai aumentar.

A dívida interna tem três origens: as despesas
do governo no atendimento de suas funções típicas, quais sejam, os gastos com
saúde, educação, segurança, investimentos diversos em infraestrutura, etc..
Quando esses gastos são maiores que a arrecadação tributária, o que é recorrente
no Brasil, cria-se um déficit operacional que, como acontece em qualquer empresa
ou família, terá que ser coberto por empréstimos, os quais o governo toma junto
aos bancos, já que está proibido, constitucionalmente, de emitir dinheiro para
cobrir déficits fiscais, como era feito no passado. A segunda origem são os
gastos com os juros da dívida. Sendo esses muito elevados no Brasil, paga-se um
montante muito alto com juros e os que não são pagos é capitalizado, aumentando
ainda mais o montante da dívida. A terceira causa decorre da política monetária
e cambial do governo: para atrair capitais externos ou mesmo para vender os
títulos da dívida pública, o governo paga altas taxas de juros, bem maior do que
a paga no exterior, e com isso o giro da dívida também fica muito alto.

A gestão das finanças de um governo assemelha-se, em grande parte, a de
uma família. Quando faz um empréstimo para comprar uma casa para sua moradia,
desde que as prestações mensais caibam no seu orçamento familiar, é visto como
uma atitude sensata. Além de usufruir do conforto e segurança de uma casa
própria, o que é um sonho de toda família, depois de quitado o empréstimo
restará o imóvel. No entanto, se uma família perdulária usa dinheiro do cheque
especial para fazer uma festa, por exemplo, está, como se diz na linguagem
popular, almoçando o jantar. Passado o momento de euforia, além de boas
lembranças, só vai ficar dívidas, e muito pesadelo, nada mais.

No caso,
o Brasil está mais assemelhado ao da família perdulária: gastamos demais,
irresponsavelmente, e entramos no cheque especial. Estamos pagando caro por
isso. Como o governo não está conseguindo pagar a dívida no seu vencimento, e
nem mesmo os juros, ao recorrer aos bancos para refinanciar seus papagaios, está
tendo de pagar um “spread” (diferença entre a taxa básica de juros, Celic, e os
juros efetivamente pagos) cada vez mais alto (em 2008 no auge da crise, o
governo chegou a pagar um “spread” de 3,5% além da Celic). E isso, além de
aumentar os encargos da dívida, é um entrave para a queda dos juros, por parte
do Banco Central.

O governo tornou-se refém dos bancos: precisa de
dinheiro para rolar sua dívida e está sendo coagido a pagar juros cada vez mais
altos (veja os lucros dos bancos registrados em seus balanços). Em 2009, em
razão das altas taxas de juros pagas, o montante da dívida cresceu 7,16% em
relação ao ano anterior, mesmo o PIB não registrando qualquer crescimento.
O
problema da dívida interna não é somente o seu montante, que já está escapando
do controle, mas sim qual o destino que estamos dando a esses recursos. Como no
caso da família que pegou empréstimo para comprar uma casa própria, se o governo
pega dinheiro emprestado para aplicar em uma obra importante: estrada, usina
hidroelétrica, etc. é defensável. É perfeitamente justificável que se transfira
para as gerações futuras parte do compromisso assumido para a construção de
obras que trarão benefício também no futuro.

Mas não é isso que está
acontecendo no Brasil. O governo está gastando muito e mal. Tal qual a família
perdulária, estamos fazendo festas não obras. Estamos deixando para nossos
filhos e netos apenas dívidas, sem nenhum benefício a usufruir. Deixo para o
prezado leitor, se quiser, elencar as obras que serão deixadas por esse governo.

Não tenho bola de cristal para adivinhar quem vai ser o próximo
presidente da República: se vai ser ele ou ela, mas posso, com segurança,
afirmar, que seja quem for o eleito vai ter que pisar no freio, logo no início
do governo. Vai ter que arrumar a casa.


Waldir Serafim é economista em Mato Grosso
Fonte: http://www.sonoticias.com.br/opiniao/2/100677/divida-interna-perigo-a-vista

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