domingo, 7 de novembro de 2010

Desconstruindo Lula: um discurso que revela a sua profunda e incurável incompreensão do que é a democracia


Lula fez um pronunciamento nesta sexta em rede nacional de rádio e TV. Redimiu-se das intervenções anteriores, em que se comportou como chefe de facção? Para quem sabe ler, a resposta é “Não!” Ele só foi mais fundo na expressão de sua formidável ignorância do que seja a democracia. E eu diria que, desta feita, há um mal adicional: a hipocrisia. Segue a intervenção do chefe do PT em vermelho. Eu vou de azul.

Minhas amigas e meus amigos,
No último domingo, o Povo Brasileiro, mais uma vez, deu uma extraordinária demonstração do vigor da nossa democracia. Mais de 106 milhões de eleitores foram às urnas. E, num ambiente de tranqüilidade e entendimento, mas também de paixão e entusiasmo, promoveram uma grandiosa festa democrática em todo o Brasil.
Estamos todos de parabéns. Como Presidente da República, quero dividir com vocês o meu sentimento: estou muito orgulhoso do nosso Povo e do nosso País.
Quero dar os parabéns também à Justiça Eleitoral, que dirigiu com equilíbrio e competência a disputa. Horas depois de encerrado o pleito, graças ao sistema eletrônico de votação e apuração, já conhecíamos os resultados.
Minhas amigas e meus amigos,
A festa democrática de domingo foi o coroamento de um processo eleitoral que mobilizou o País durante meses, no qual foram escolhidos não só a nova presidente, como também governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais.
Esse processo foi realizado sob o signo da liberdade. O Povo pode escolher seus dirigentes e representantes livremente. Também livremente, partidos e candidatos puderam expressar suas opiniões, defender suas idéias e criticar as propostas dos seus adversários.
Foi assim, em meio a um amplo debate nas ruas, no trabalho, nas escolas, no rádio, na televisão e na internet, que cada cidadão e cada cidadã, sem qualquer tipo de coação, pode avaliar candidatos e projetos, firmar convicções e amadurecer seu voto.
Bem, aqui estamos entre o clichê decoroso — necessário em discursos oficiais — e a exaltação do óbvio. Sim, temos um ambiente de plena liberdade, que nos é garantido pela Constituição.

Nas urnas, falou o Povo. Falou com voz clara. Falou com convicção.
Aqui já noto uma certa tentação de responder a um questionamento que não foi feito por ninguém. Sem dúvida, há clareza! Sem dúvida, há convicção! Quem sugeriu que os eleitores de Serra são “gado” foi Lula, na entrevista concedida anteontem.

Agora cabe a todos respeitar sua vontade.
Esse é um convite que qualquer governante poderia ter feito ao tempo em que o PT era oposição. FHC exercia o seu segundo mandato havia 19 dias quando Tarso Genro, capa-preta do partido, cobrou publicamente a sua renúncia. Dias depois, o PT daria início à campanha “Fora FHC”.

Os escolhidos para governar devem ter a liberdade para organizar suas equipes e colocar em prática suas propostas, de modo a honrar os compromissos assumidos com a sociedade.
Desde que respeitada a Constituição. O governo não tem, por exemplo, o “direito” de financiar o MST, um movimento que transgride a Constituição.

Já aqueles a quem o povo colocou na oposição devem ter a liberdade de criticar e apontar os erros dos governantes, para que possam em eleições futuras se constituir como alternativa.
Aqui está o cinismo. Lula, presidente da República e enquanto tal — já que não existe “fim de expediente” para quem exerce essa função — tratou o pleito da oposição como “retrocesso”. Pior: atribuiu-lhe intenções que não tinha; despiu-se de qualquer noção de pudor e liturgia do cargo para promover a sua candidata.

Passadas as eleições, quando é compreensível que o calor da disputa gere confrontos mais duros, é importante que governo e oposição, sem abrir mão de suas opiniões, respeitem-se mutuamente e divirjam de forma madura e civilizada.
Certamente o confronto eleitoral é sempre mais duro. Mas respeito é preciso a qualquer tempo. A mentira sobre a privatização da Petrobras, por exemplo, é evidência de desrespeito. Negar as conquistas do antecessor, sobre as quais construiu as suas próprias, é evidência de desrespeito. Ao longo de oito anos, não houve dia em que Lula não tivesse tentado deslegitimar a oposição e o presidente que o antecedeu. Evidência de desrespeito! Caia nessa sua conversa quem quiser.

Como todos sabemos, o Brasil vive hoje um momento mágico, de crescimento econômico, inclusão social, forte geração de emprego, distribuição de renda e redução das desigualdades regionais.
“Mágico” uma ova! Vive um momento que foi construído com muito sacrifício. E as suas bases foram dadas pelo governo anterior, contra a vontade do PT, contra a sua militância. Não existe mágica em política e em economia.

Estou convencido de que, nos próximos anos, o Brasil poderá consolidar-se como uma terra de oportunidades e de prosperidade, transformando-se numa nação desenvolvida. Avançaremos mais rapidamente nessa direção se soubermos qualificar o debate político.
Não tentar eliminar “o outro” seria um bom caminho — justamente o que Lula não fez.

Minhas amigas e meus amigos,
Quero dar os parabéns à companheira Dilma Roussef. Para mim, primeiro trabalhador eleito Presidente da República, será motivo de grande satisfação transmitir a faixa presidencial, no próximo dia 1º de janeiro, à primeira mulher eleita Presidente da República. Tenho perfeita consciência do imenso simbolismo desse ato.
Já apontei a vigarice desse discurso. Um presidente da República não é chefe nem de facção nem representante de categoria.

Ele proclamará ao mundo inteiro - e a nós mesmos - que somos um País com instituições consolidadas, capazes de absorver mudanças e progressos. E que somos também um País que aprendeu a duras penas que não há preconceito, por mais forte que seja, que não possa ser vencido e superado pela tenacidade do povo.
Poucos perceberão que, juntando-se esse parágrafo ao anterior, tem-se um mimo do pensamento autoritário. Cria-se, quando menos, uma correlação entre a democracia e a eleição de um “trabalhador” e de uma “mulher” — se é que não se tenta estabelecer uma relação de causa e efeito mesmo. E aí está o problema! A consolidação das instituições se dá com o respeito à Constituição, tantas vezes agredidas pelo Planalto e seus esbirros no processo eleitoral, e não pela eleição de representantes de setores da sociedade. Um presidente da República representa o conjunto do país.
PERGUNTA ÓBVIA - Se Dilma tivesse sido derrotada, teria sido, então, uma vitória do preconceito? O “preconceito” só é derrotado quando vence um candidato do PT, seja ele operário, mulher ou que “categoria” se escolha depois? Que lógica torta é essa?

Simbolicamente, estaremos proclamando ainda que ninguém é melhor do que ninguém.
Errado de novo! Caso Serra tivesse vencido, estaríamos, então, proclamando o contrário? A incompreensão do PT do que é a democracia é profunda! O presidente que acabou de pregar o respeito à oposição acaba de desrespeitá-la, como se a eventual vitória de Serra não lustrasse, então, os princípios da democracia. É o fim da picada!

Não importam as diferenças de origem social, de sexo, de sotaque ou de fortuna. Somos todos brasileiros.
Sem dúvida. No caso da eleição de 2010, o filho do vendedor de frutas perdeu para a filha de um rico empresário. Não importa de fato! É a presidente eleita, entenderam?

E todos devem ter oportunidades iguais, o direito a sonhar com dias melhores e o apoio para melhorar sua vida e a de sua família.
Boa noite!
Depois de cravar os dentes na artéria da democracia, Lula resolveu dar uma assopradinha, como sempre. Uma assopradinha ruim. Lula foi o primeiro a eliminar as “oportunidades iguais” da disputa quando as tornou desiguais com o uso despudorado da máquina.

Não tem jeito! Lula pode ter 500% de popularidade. No que concerne às instituições, será sempre um chefe de facção.

Por Reinaldo Azevedo

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