domingo, 24 de outubro de 2010

José Dirceu o homem de confiança que hoje é réu

A homem de confiança hoje é a Dilma

José Dirceu está de volta aos noticiários. O ex-ministro da Casa Civil poderá ser investigado devido a uma suposta intervenção na formulação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) do governo federal. Ele teria recebido 620.000 reais do empresário Nelson Santos, dono da Star Overseas Ventures, que seria a principal beneficiada da Telebrás, podendo levar 200 milhões com a nova atuação da companhia. Depois do envolvimento com o mensalão e de ter seus direitos políticos cassados, Dirceu se envolve em mais um escândalo político.

A trajetória política de José Dirceu começou com o movimento estudantil da década de 1960.Candidato a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), foi preso 1968 em Ibiúna, e liberado em 1969, juntamente com outros políticos, em troca do embaixador americano sequestrado Charles Elbrick. Em liberdade, Dirceu se refugiou em Cuba, país onde recebeu treinamento para guerrilheiro, técnica que abandonou na ilha de Fildel ao regressar silenciosamente ao Brasil, no início da década de 1970.

Para despistar os militares, José Dirceu voltou transformado: em Cuba, passou por um cirurgia plástica que mudou suas feições e adquiriu uma identidade falsa. A verdadeira não foi revelada durante muito tempo nem para a então mulher, que só teve conhecimento de sua história depois da anistia, em 1979. Com a redemocratização, Dirceu ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT), e se elegeu deputado estadual e federal. À frente da campanha eleitoral de 2002, costurou alianças que tiraram a fama do partido de intransigente - viabilizando assim a eleição de Lula. Com a vitória do PT, assumiu o posto de ministro-chefe da Casa Civil.

Pouco mais de um ano depois de atingir o apogeu, os problemas de Dirceu começaram.Primeiro, foi o escândalo Waldomiro Diniz. Principal assessor de Dirceu na Casa Civil, Waldomiro presidiu a estatal de loterias do Rio, Loterj. Nesse cargo, pedia propina a donos de bingos, para ajudar em campanhas petistas. Filmado em uma dessas oportunidades, foi obrigado a deixar o cargo oficial. Quando o caso veio à tona, Waldomiro elaborava uma medida provisória para legalizar os bingos no país. Dirceu jurou que não sabia desse toma-lá-dá-cá.

Depois de Waldomiro Diniz, veio Roberto Jefferson. O ex-deputado acusou José Dirceu de comandar o esquema do mensalão - um esquema de compra de votos de parlamentares deflagrado após a denúncia de um esquema de corrupção nos Correios feita pela VEJA.Além de mentor do mensalão, outras seis acusações pesaram sobre Dirceu. Se já tinha resistido ao primeiro escândalo, o homem de confiança de Lula não resistiu ao segundo. Em 1º de dezembro de 2005, seu mandato de deputado foi cassado pela Câmara, mesma punição sofrida por Jefferson semanas antes. Sem seus direitos políticos, ambos são inelegíveis até 2015.

Apesar da punição, o ex-ministro precisava ainda esclarecer uma infinidade de suspeitas que orbitavam ao seu redor desde 2003. Dentre elas, a denúncia do doleiro Lúcio Funaro, que declarou ao Ministério Público que Dirceu ou o PT recebeu 500.000 reais de propina pela indicação de diretores para o fundo de pensão Portus. Outra dúvida era Denise Abreu. Dirceu a incumbiu de acompanhar a operação de fusão da Varig com a TAM. Depois, a indicou para a diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil, de onde a moça se demitiu, sob a acusação de favorecer as empresas aéreas que deveria fiscalizar. TAM, inclusive.

A VEJA, José Dirceu falou com exclusividade, em duas ocasiões muito distintas, de sua trajetória política. Na primeira, em 2003, ocupava o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Na época, era o ministro com mais atribuições e poder de decisão do governo Lula – e exercia suas funções com mão-de-ferro. Na entrevista, ele criticou o Judiciário, espicaçou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e defendeu seu estilo “trator”. Cogitado para ser candidato ao governo de São Paulo em 2006, disse que não tinha pressa alguma para definir seu futuro político: “Ainda estou inteiraço”.

Na segunda ocasião, em 2004, estava no centro da crise política que havia se instalado no coração do governo. Evitando declarações públicas, aceitou receber VEJA. Aos jornalistas negou que tinha conhecimento sobre a atuação irregular de Waldomiro Diniz e afirmou que não se afastaria do cargo. “Eu não vou sair do governo. Não participei, não apoiei, não tinha conhecimento. Não devo sair. Devo continuar fazendo meu trabalho. Tenho a confiança do presidente, do meu partido e dos partidos que apoiam o governo”, disse Dirceu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Anônimos não serão publicados