domingo, 1 de agosto de 2010

Os brasileiros decentes venceram (por Augusto Nunes)



“Eu tenho que respeitar a lei de um país, mas se vale minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e pelo povo iraniano, se esta mulher está causando incômodo, nós a receberíamos no Brasil”, começou a recuar neste sábado o presidente Lula. Num comício em Curitiba, prometeu fazer “um apelo” ao amigo Ahmadinejad para que poupe Sakineh Mohammadi Ashtiani, acusada de adultério e condenada à morte por apedrejamento. Imediatamente, a candidata Dilma Rousseff disse amém ao chefe que, na quarta-feira, qualificou uma causa humanitária de “avacalhação”.

Avacalhação é referir-se a Sakineh como “essa mulher”. Avacalhação é avisar que se oporá com altivez ao assassinato por tortura, mas sugerir ao parceiro que se livre por outros meios — despachando para o exílio, por exemplo — alguém que está “causando incômodo”. Avacalhação é transformar em intrumento eleitoreiro o que poderia ser um gesto de grandeza. Avacalhação é ignorar que os direitos humanos estão acima de todas as leis e, de novo, bajular os que sonham com a volta à pré-história. Avacalhação é fazer de conta que não existem outros 24 iranianos à espera da morte por apedrejamento.

Lula avacalhou o próprio recuo. Mas recuou. Isso é o que importa. Está agora obrigado a cumprir a promessa. O advogado de Sakineh tem divulgado os apelos que chegam do mundo inteiro. Logo se saberá se Lula disse algo a Ahmadinejad — e o que disse. Conforme o conteúdo, poderá livrar-se de anexar outro nome ao item da folha corrida que inclui Orlando Zapata, os pugilistas Erislandy Lara e Guilherme Rigondeaux, dezenas de presos políticos cubanos e outras vítimas de ligações políticas incestuosas e da revogação de princípios morais. Mais importante ainda, o Brasil será poupado de envergonhar-se com outro capítulo à história nacional da infâmia. O presidente não conseguiu incluir o país entre os cúmplices dos carrascos de Sakineh.

Uma chuva de comentários avalizou o aviso contido no post desta sexta-feira: nada justificava a frieza do governante confrontado com o espetáculo da brutalidade. Os milicianos a serviço da esquerda psicótica trataram de erguer outro monumento à cretinice sem cura. Nenhum deles tem neurônios a consultar e sempre estão com pressa. Em mensagens raivosas, tentaram justificar ou celebraram ostensivamente a omissão cruel. E agora? Lula percebeu que cometera outro equívoco criminoso — e, como sempre, recuou sem prevenir os áulicos, os oportunistas, os subalternos e os milicianos.

Horas depois de compor o hino à abjeção, o pastor tratou de engavetar o que dissera sem advertir o rebanho. O que têm a dizer os milicianos do stalinismo farofeiro? Os partidos de oposição devem incluir no horário eleitoral as gravações dos dois momentos. A pose de consultor de Deus é a mesma. As coisas que diz entram em violenta colisão frontal. Colocados lado a lado, os falatórios gritam que o caçador de votos preferiu trocar de discurso não por pensar no drama em Teerã, mas na eleição no Brasil.

Lula sempre pensa no que é melhor para Lula e para a campanha de Dilma Rousseff. Se algum dia conseguiu, já Cumpre a seus adversários deixarem claro que houve não um gesto solidário, mas um show de oportunismo de quem, incapaz de sentir compaixão, só consegue chorar quando lembra que o fim da festa está chegando. Cabe à oposição mostrar que nenhum país merece ser governado por um animador de programa de auditório sem compromisso com a ética, a coerência e o país.

Lula pode fazer o que quiser sem danos à imagem e sem sofrer pesados prejuízos eleitorais? O recuo forçado provou que não. Os brasileiros se tornaram tão abúlicos que engolem sem engasgos palavrórios que insultam a inteligência e revogam o sentimento da honra? O país que presta provou que não. Os brasileiros decentes venceram.

A luta pela salvação de Sakineh ainda está em seu começo. Vai continuar. Ela pode escapar do primitivismo. O Brasil também.

Fonte: Blog Augusto Nunes (VEJA)

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