sexta-feira, 9 de julho de 2010

“Fugi da Bolívia porque temo pela minha vida", diz juiz

Juiz boliviano que busca refúgio no Brasil conta a VEJA.COM que está sendo ameaçado pelo regime de Evo Morales

Veja.com

Sofia Krause

O juiz boliviano Luis Alberto Tapia Pachi veio ao Brasil após sofrer perseguição política em seu país

Há uma semana, o magistrado de 53 anos abandonou a família em Santa Cruz de La Sierra e se exilou na casa de um amigo brasileiro, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul (Adriano Teixeira/ AE)

Além da perseguição ao juiz, seu filho já escapou de um sequestro e sua mulher quase foi baleada

O medo de morrer e a revolta com os abusos do governo Evo Morales fizeram o juiz boliviano Luiz Hernando Tapias Pachi cruzar a fronteira do Brasil e buscar ajuda. Há uma semana, o magistrado de 53 anos abandonou a família em Santa Cruz de La Sierra e se exilou na casa de um amigo brasileiro, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Os problemas do juiz começaram há um ano, quando ele assumiu um caso que envolve a suspeita de execuções políticas cometidas por agentes do governo. Ele relata que passou a receber recados ameaçadores e começou a ser seguido na rua por homens armados. As intimidações, narra o juiz, partiram de funcionários do governo de Evo Morales. “Eles não querem uma investigação independente.”. Apesar das ameaças, o magistrado se recusou a abafar os crimes. O fato é que a situação se agravou. Seu filho escapou de um sequestro e sua mulher quase foi baleada. Segundo o magistrado, perseguições como a que ele sofre são comuns na Bolívia. “A democracia boliviana está em perigo”, diz o juiz que já formalizou um pedido de refúgio ao governo brasileiro. A seguir, a entrevista:

Por que o senhor fugiu da Bolívia?
Porque eu temia pela minha vida. Em abril de 2009, três pessoas foram mortas em um hotel de Santa Cruz. A suspeita de autoria recaiu sobre agentes da polícia de Evo Morales. O caso seguiu para ser investigado pelo Ministério Público e, por sorteio, eu acabei sendo designado para conduzi-lo judicialmente. Pouco tempo depois tentaram tirar o processo de mim, mas não havia amparo legal para isso.

O que havia nesse caso que tanto incomodou o governo Evo Morales?
Acabei descobrindo evidências de que os crimes teriam como objetivo impedir um possível complô para assassinar Evo Morales. O governo não quer que esses abusos de poder venham a público e, naturalmente, tem feito de tudo para impedir isso – o que inclui me ameaçar.

Que tipos de ameaças o senhor e sua família sofreram?
Eu recebi quase que diariamente recados de pessoas ligadas ao governo. Diziam que eu deveria levar esse caso adiante e exigiam que eu me calasse. Chegaram a ligar para minha casa. Eu também era seguido por uma forte força policial – era uma espécie de pressão psicológica. Tentaram seqüestrar o meu filho, e na operação minha esposa quase leva um tiro. Incrível dizer isso, mas acho que tivemos sorte.

Como o senhor sabe que esses ataques partiram do governo?
Porque eu só comecei a sofrer esse tipo de ameaça depois que recebi o caso. Os recados partiam diretamente de pessoas ligadas a Evo.

Casos como o do senhor são comuns na Bolívia?
Sim. O governo não respeita o poder judiciário do meu país. Essa é a minha luta. Sei de muitos processos que foram engavetados depois que se descobriu que poderiam incriminar o governo de La Paz.

O senhor acha que a democracia corre risco na Bolívia?
A partir do momento em que as instituições que dão base a um estado democrático de direito são ameaçadas, como acontece agora, é possível concluir que a democracia está em perigo.

O senhor pensa em voltar para a Bolívia? Ou seu exílio será permanente?
Eu amo meu país. Embora esteja recebendo apoio dos brasileiros, pretendo voltar à Bolívia. É lá que está a minha família.

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