quarta-feira, 12 de maio de 2010

O PT na encruzilhada - por Lucia Hippolito


O PT nasceu como um partido completamente submisso à direção nacional. Leia-se direção paulista.
Os graus de autonomia dos diretórios regionais sempre foram mínimos.
As diretrizes partiam da direção nacional para os estados, que obedeciam sem pestanejam.
Centralismo democrático é isso aí.
Mas o partido cresceu. Suas bancadas no Congresso aumentaram, assim como o número de deputados estaduais, prefeitos e vereadores.
O resultado é que o PT se enraizou nos estados. Começou a participar da política local, fez alianças, articulações políticas nos estados.
O PT cresceu nos estados, fez política nos estados, fez alianças, fez bancadas e muito legitimamente pleiteia o poder nos estados, como todos os outros partidos.
Se o mensalão representou o fim das ilusões de que o PT poderia representar alguma coisa de diferente na política brasileira, os oito anos de governo Lula mostraram que o partido aprendeu a compor alianças nos estados.
Assim, o conflito interno passou a ficar cada dia mais explícito, entre diretórios regionais que fazem política e disputam legitimamente o poder nos estados e uma direção nacional prepotente e autoritária, que quer conter as ambições legitimas dos diretórios regionais em uma camisa de força.
Resultado: encrenca por todo canto.
As eleições se aproximam, e há montanhas de problemas nos estados para compor palanques para a ex-ministra Dilma Rousseff, porque o presidente Lula impôs pela goela abaixo do PT alianças, sobretudo mas não apenas, com o PMDB, que são desvantajosas para o partido nos estados.
Fica quase impossível explicar para políticos e militantes petistas por que, no Rio Grande do Sul, o ex-ministro Tarso Genro é candidato ao governo, mas em Santa Catarina a senadora Ideli Salvatti é obrigada a renunciar a suas pretensões para apoiar o candidato do PMDB.
Depois de oito anos aparando pedra com o peito, depois de oito anos fazendo os mais incríveis papéis, os mais patéticos contorcionismos éticos e verbais, tudo para defender o governo Lula, agora Ideli não pode ser candidatar ao governo de Santa Catarina?!
Como é isso?!
No Paraná, a mesma coisa. O PT tem uma candidata competitiva ao Senado, Gleise Hoffmann, mas ela está sendo obrigada por Lula a ser candidata a vice-governadora para reforçar a chapa do senador Osmar Dias (PDT), que tem um osso duro pela frente, a candidatura do ex-prefeito de Curitiba Beto Richa (PSDB), durante sete anos o prefeito mais bem avaliado do Brasil.
Será que o PT do Paraná vai para o sacrifício?
No Rio de Janeiro, já é lugar-comum a direção nacional do PT passar com um trator nas pretensões do diretório regional. José Dirceu é useiro e vezeiro em fazer isso.
Em 2010, o ex-prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, renunciou a uma candidatura ao governo porque o presidente Lula o obrigou a apoiar a reeleição do governador Sérgio Cabral.
Na Bahia, o divórcio entre Geddel Vieira Lima (PMDB), ex-ministro de Lula, e o governador Jacques Wagner (PT), que busca a reeleição, já é fato consumado há tempos. Ambos são candidatos, e Geddel tenta se apropriar do espólio do carlismo no interior.
No Ceará, o PT tem um bom candidato ao Senado, o ex-ministro da Previdência José Pimentel, mas o governador Cid Gomes (PSB), que tenta a reeleição, vai apoiar a candidatura de seu amigo de longa data, Tasso Jereissati (PSDB).
Ainda mais porque não se conhece até agora o destino do deputado Ciro Gomes, se a presidência da República, ou o ostracismo.
No Pará, onde Lula beijou as mãos de Jader Barbalho (PMDB) para selar a aliança com o PT, afirmando publicamente que se tratava de “uma aula de ciência política”, PMDB e PT já se separaram.
Parece que a aula não deu certo.
Jader rompeu com a governadora Ana Júlia, e não se sabe o que vai acontecer com o PT paraense.
Já no Maranhão, o PT, que cresceu fazendo oposição cerrada à oligarquia Sarney, que detém o controle coronelista do estado há 40 anos, recusa-se a apoiar a reeleição de Roseana Sarney.
Os apelos de José Sarney ao presidente Lula por enquanto têm sido em vão.
Finalmente, o caso mais grave é o de Minas Gerais.
Com dois candidatos competitivos, dois ex-prefeitos de Belo Horizonte bem avaliados pelos mineiros, um deles ex-ministro, Patrus Ananias e Fernando Pimentel, o PT mineiro estava sendo obrigado pelo presidente Lula a engolir a candidatura do senador Hélio Costa (PMDB), até agora líder das pesquisas.
Mas o diretório regional rebelou-se e marcou prévias para dia 2 de maio, para escolher o candidato... ao governo do estado.
Se o partido aprovar candidatura própria, vai ser difícil recuar.
Claro que um dos dois petistas sempre poderá ser candidato ao Senado, mas um deles ficará insatisfeito, porque consideram-se favas contadas que uma das vagas ao Senado será de Aécio Neves.
Parece estar terminando o tempo em que a direção nacional do PT impunha com mão de ferro a sua vontade sobre os diretórios regionais.
O PT está diante de uma encruzilhada
Ou assume seu papel como partido político adulto, enraizado nos estados, disputando a política estadual com os outros partidos, participando da política local e nacional.
Ou se mantém sob a tutela de Lula e da direção nacional que, de São Paulo, impõe sua vontade através do controle do aparelho do partido.
Se optar por se manter eternamente submetido aos caprichos da direção paulista, o PT corre sério risco de diminuir.
Essa é uma escolha difícil, mas está chegando a hora de o partido enfrentar seu destino.

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