sábado, 13 de março de 2010

Um candidato enrolado

Alternativa do PT em Brasília para a sucessão de Arruda, Agnelo Queiroz, ex-ministro de Lula, teve aumento de patrimônio acima da renda e invadiu área pública
ANDREI MEIRELES E MARCELO ROCHA
Kleber Lima
INVASOR CINCO ESTRELAS
Agnelo (acima) se apresenta como a alternativa ética entre os políticos de Brasília, mas construiu quadra de tênis e campo de futebol em terreno público (o traçado acima mostra a área invadida por ele ao lado de sua casa)
Ex-ministro dos Esportes no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Agnelo Queiroz é pré-candidato do PT ao governo de Brasília. Antes disso, ele poderá assumir o mandato de senador. Está previsto para abril o julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do pedido de cassação do senador Gim Argello (PTB-DF), acusado de usar a máquina pública na campanha eleitoral de 2006. Se o Tribunal decidir pela punição de Gim, Agnelo ganhará a vaga por ter sido o segundo colocado na disputa para o Senado.

Hoje diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Agnelo se apresenta aos eleitores como uma “opção ética” entre os políticos de Brasília, envolvidos no mais bem documentado escândalo de corrupção da história do país. É com essa plataforma que ele planeja candidatar-se à sucessão do governador afastado José Roberto Arruda, há mais de um mês preso numa cela especial na Polícia Federal. Para manter esse discurso, no entanto, Agnelo terá de explicar uma repentina evolução patrimonial.

Na declaração de bens que apresentou à Justiça Eleitoral em 2006, Agnelo Queiroz informou que dispunha de R$ 45 mil em contas em quatro bancos e um apartamento no valor de R$ 78 mil. Todos os seus bens somavam R$ 224.300. Menos de quatro meses depois, ele deu uma entrada de R$ 150 mil para a compra de uma casa com mais de 500 metros quadrados de área construída numa das regiões mais valorizadas de Brasília – o Setor de Mansões Dom Bosco, vizinho ao Jardim Botânico. Ele diz que quitou o imóvel em cinco parcelas mensais. O valor registrado na escritura foi de R$ 400 mil. Agnelo afirma que não fez empréstimo nem se desfez de nenhuma propriedade para pagar o imóvel. “Usei o dinheiro de minhas economias e as de minha mulher”, disse. Agnelo apresentou as declarações de Imposto de Renda dele e da mulher referentes aos anos de 2006 e 2007 e extratos bancários. As informações mostram que o casal não tinha recursos para pagar nem a metade do valor declarado da casa. No mesmo período, Agnelo comprou mais dois apartamentos financiados e um carro.

Agnelo acumula contradições. Disse que não encontrou Roriz, mas depois confirmou reunião em 2008

Antes de se mudar para a casa, Agnelo contratou um arquiteto para fazer uma ampla reforma. “A casa estava muito depreciada”, diz. Fez mais. Numa área pública contígua à mansão, com cerca de 4.000 metros quadrados, ele mandou construir uma quadra de tênis, um campo de futebol e um pequeno lago. Foram instalados também refletores para a prática de esporte à noite.

A legislação proíbe qualquer construção nesses terrenos. Os órgãos de fiscalização do governo informaram que as obras feitas por Agnelo são ilegais. Ouvido por ÉPOCA, Agnelo primeiro tentou argumentar que era uma prática comum nas áreas nobres de Brasília cercar as áreas verdes públicas. Depois, acabou admitindo ter cometido uma irregularidade. “Reconheço que foi uma ilegalidade. Para que isso não servisse à exploração política na campanha eleitoral, mandei desmontar a quadra há mais ou menos um ano”, afirma. “Não posso pagar por um erro que já corrigi.” Na sexta-feira, por meio de sua assessoria, Agnelo retificou essa declaração e informou que a quadra foi desmontada apenas neste ano.

Ao ser entrevistado por ÉPOCA, Agnelo Queiroz se disse incomodado em falar sobre seus negócios particulares. Afirmou que gostaria de ser ouvido sobre seus planos de governo para Brasília. Indagado sobre como seu eventual governo agiria em relação às invasões urbanas, Agnelo desconversou. “Não tenho uma opinião formada sobre isso. Afinal, eu não tenho obrigação de ter opinião sobre todas as coisas”, disse. Especialistas afirmam que o Distrito Federal é a unidade da Federação que mais sofre com ocupações irregulares, tema obrigatório em todas as campanhas eleitorais na cidade.

Em disputa com o deputado federal Geraldo Magela pela candidatura do PT ao governo do Distrito Federal, Agnelo Queiroz está tendo de responder a outras questões embaraçosas. As prévias petistas estão marcadas para o dia 21 de março, e os adversários de Agnelo dentro do PT o questionam sobre um encontro no primeiro semestre do ano passado com o ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa, o delator do escândalo do panetone. Nessa reunião, Agnelo assistiu em primeira mão aos vídeos em que aparecem o governador Arruda e outros políticos de Brasília recebendo dinheiro. “Fiquei calado para não politizar o assunto nem prejudicar uma possível investigação sobre esse esquema de corrupção”, diz Agnelo. Ele saiu da conversa com Durval convencido de que, se os vídeos fossem divulgados, aumentariam consideravelmente suas chances eleitorais. Amigos de Durval dizem que Agnelo prometeu que recompensaria o ex-secretário por eventuais denúncias contra Arruda. Eleito governador, Agnelo daria cargos a Durval na administração de Brasília. O ex-ministro nega. “Isso é invencionice. Sei que minha conversa com o Durval foi filmada. Gostaria que ela fosse divulgada. Se eu tivesse qualquer temor, não seria candidato”, afirma.

Agnelo se diz vítima de adversários políticos do próprio PT. Mas nem tudo o que se fala de Agnelo pode ser atribuído a intrigas dos companheiros de partido. ÉPOCA ouviu de integrantes da coordenação da campanha de Arruda em 2006 que o governador preso, em público, apoiava a candidatura ao Senado do ex-governador Joaquim Roriz, mas nos bastidores trabalhava para eleger Agnelo. “Não recebi dinheiro, tive ajuda zero do Arruda. É verdade que muita gente próxima dele votou em mim. Mas fizeram isso porque não gostavam do Roriz”, diz Agnelo.

Outro relacionamento político que hoje incomoda Agnelo é sua aproximação com Joaquim Roriz em 2008. Assessores de Roriz afirmam que eles fizeram um pacto de não agressão e discutiram estratégias para enfrentar a candidatura à reeleição do governador Arruda. Segundo esses assessores, em outubro de 2008, Agnelo foi até a fazenda Palma, uma propriedade de Roriz no município goiano de Luziânia, para conversar com o ex-governador. Na quinta-feira à noite, Agnelo desmentiu a reunião. “Isso é delírio, nunca estive na fazenda de Roriz.” No dia seguinte, sua assessoria disse a ÉPOCA que ele resolveu corrigir a informação. Agnelo esteve, sim, na fazenda de Roriz para conversar sobre as eleições no DF.

As contradições de Agnelo e suas dificuldades em explicar o crescimento patrimonial e a invasão de uma área pública mostram que está difícil encontrar um candidato ao governo do Distrito Federal que se mostre infenso a práticas condenáveis para um homem público.

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