sexta-feira, 12 de março de 2010

Presidente Lula x ex-dissidente Lula

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O dissidente cubano Orlando Zapata Tamayo levou sua greve de fome às últimas consequências. Sua morte, um dia antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à ilha dos irmãos Castro, expôs uma face do regime que, se não constrange seus líderes, deixa desconfortáveis muitos de seus admiradores. Segundo a Anistia Internacional, o encanador Tamayo era um "preso de consciência", encarcerado em 2004 sob a acusação de "desobediência". Após o fim trágico de seu protesto, a Anistia exigiu de Cuba que liberte todos os outros 54 presos de consciência do país adotados pela entidade. O ex-torneiro mecânico Lula, no entanto, preferiu não se pronunciar em favor do encanador cubano.

O ministro Celso Amorim diz que o presidente Lula não deve apoio a "tudo que é dissidente" no mundo. Mas, logicamente, o passado de Lula como ex-preso político, em seus tempos de sindicalista, provoca em muitos um estranhamento, que para alguns chega a indignação. Como poderia Lula, que sofreu nas mãos do governo militar brasileiro, não se solidarizar com prisioneiros de um outro regime ditatorial?

Nessa batalha entre os dois Lulas, o ex-dissidente e o presidente, aparentemente está vencendo o chefe de Estado. Lula estaria, segundo informa o chefe do Itamaraty, respeitando a independência de outra nação ao não criticar publicamente seu governo. Possíveis críticas poderiam estar sendo feitas, imagina-se, mas apenas de forma privada. Tal raciocínio, no entanto, corre o risco de exagerar o realismo que, naturalmente, pauta a função de presidente. Além de chefe de Estado, Lula é chefe de governo, ou seja, precisa manifestar-se ativamente sobre assuntos internacionais, ligados muitas vezes a países específicos. Por isso mesmo Lula não cansa de criticar os Estados Unidos em questões comerciais, por exemplo. Recentemente, criticou diretamente a Grã-Bretanha por causa do seu controle sobre as ilhas Malvinas/Falklands.

Mas o comportamento do presidente sugere que ele acredita ter de preservar um papel supostamente conquistado pelo Brasil nos últimos anos, de líder de um mundo alternativo, que contesta a ordem vigente, criada pelo países desenvolvidos. Lula parece crer que, para garantir tal suposta liderança brasileira, o presidente não pode criticar abertamente Cuba. Nem o Irã, a Rússia ou a China. Assim, Lula estaria, supostamente, garantindo um poder de influência do Brasil sobre essas nações. O preço a pagar seria nunca criticá-los, mesmo que eles deixem prisioneiros políticos morrer de fome ou neguem a ocorrência do Holocausto.

O que o ex-dissidente Lula diria sobre isso? Se Lula fosse apenas um ex-prisioneiro, sem cargo eletivo nem interesses no jogo político internacional, ele possivelmente estaria solidário com a memória do encanador Orlando Zapata Tamayo e outros prisioneiros cubanos. Mas o presidente Lula parece entender que a solidariedade de ex-dissidente e o pragmatismo político de presidente da República não podem caminhar juntos. Há o risco, porém, de que, ao sufocar a compaixão de quem sofreu nas mãos de uma ditadura, o chefe de Estado perca parte da credibilidade conferida por seu passado político. Todo o esforço por um papel de liderança internacional poderia, então, acabar sendo perdido. O governo brasileiro certamente faz seus cálculos e, com eles em mãos, as suas apostas

2 comentários:

  1. O que pensa Lula sobre as greves de fome de Gandhi, Mandela e outros?

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  2. OLÁ LORD.

    CARO AIRTON LEITÃO. LULA NÃO PENSA NADA SIMPLESMENTE PORQUE SEU CÉREBRO SÓ FUNCIONA PRO MAL, PRA CORRUPÇÃO ETC...

    ABS DO BETOCRITICA

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