segunda-feira, 22 de março de 2010

Ilha presídio por Miriam Leitão

Foi constrangedor ver a cena do presidente Lula e seus assessores rindo do
lado dos Castros de Cuba, enquanto o governo cubano prendia os amigos de
Orlando Zapata que tentavam comparecer ao enterro.

A mãe de Zapata disse que ele era torturado sistematicamente; o desespero
foi tal que ele ficou 84 dias sem comer. E lá estava o nosso presidente
sorrindo e brincando com os ditadores.

Tenho dito aqui que concordo com a necessidade de se apurar as torturas e
mortes de opositores durante a ditadura brasileira, mas o governo fica sem
moral para defender que, no Brasil, os militares que torturaram e mataram
sejam punidos, se aceita se confraternizar com quem tortura e mata
integrantes da oposição em Cuba.

Os detalhes da morte de Orlando Zapata Tamayo lembram os piores regimes. A
casa dele, onde o corpo foi velado, ficou cercado de seguranças. Pessoas
tentavam chegar perto do livro de condolências e não conseguiam. Alguns
amigos dele permanecem presos só por querer ir ao enterro.

A mãe, Reina Zapata, disse que o filho era "prisioneiro de consciência" e
pediu que o mundo cerre fileiras em defesa dos outros prisioneiros
políticos de Cuba. Ou o governo Lula acha normal a tortura e a morte de
dissidentes, e aí tem que abonar o passado brasileiro, ou então tem que
declarar sua defesa aos direitos humanos dos cubanos.

E que não se diga que isso é assunto interno dos cubanos, porque terá que
dizer que a queda de Manuel Zelaya era um assunto dos hondurenhos.

Em Honduras, o governo brasileiro ficou desde o primeiro momento contra o
golpe. Nisso estava certo, mas exagerou quando permitiu que a embaixada
fosse usada como aparelho político.

Parecia um governo disposto a ir às últimas consequências para defender os
princípios democráticos.
Até hoje não reconhece o governo que foi escolhido pelos hondurenhos no
voto, alegando que a eleição não foi legítima, ainda que não tenha sido
constatada nenhuma irregularidade.

A resposta do presidente Lula em Havana foi toda inadequada. Ele disse não
ter recebido a carta do dissidente em greve de fome, mas que se recebesse
tentaria demovê-lo do protesto.

Ora, um preso de consciência em regime ditatorial às vezes nada pode fazer
a não ser apelar para a última forma de manifestação que lhe resta. Raúl
Castro mentiu descaradamente.

"Em meio século, aqui não assassinamos ninguém. Aqui ninguém foi torturado.
Aqui não houve nenhuma execução extrajudicial." Para acreditar nisso é
preciso ser um E.T. que acaba de desembarcar no planeta.


Em 2003, quando vários dissidentes foram executados, o então embaixador
brasileiro no país Tilden Santiago disse que o governo cubano tinha "o
direito de se defender" e mais não falou, alegando que era constrangedor
criticar alguém "da família". Assim o governo Lula se sente em relação aos
ditadores cubanos: eles podem tudo porque são "de casa", ditadores amigos.

Como disse o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia, em entrevista à "Folha", o
governo brasileiro é omisso nas violações dos direitos humanos praticadas
por amigos, e estridente com os outros países.

Lampreia pode dizer de cadeira, porque quando esteve em Cuba, em 1998,
manteve reuniões com dissidentes, ignorando a irritação do governo de
Havana.
Durante a ditadura brasileira, era comum visitantes estrangeiros ignorarem
a irritação dos generais e manterem reuniões com opositores ou críticos do
regime.
Foi assim que em 1978 o então presidente americano Jimmy Carter se reuniu
com D. Paulo Evaristo Arns e o reverendo Wright, autores do relatório sobre
tortura "Brasil Nunca Mais".

E sua mulher Rosalyn Carter foi a Recife visitar D. Helder Câmara.
Carter recebeu de D.Paulo uma carta com o nome de 27 desaparecidos
políticos e foi ao presidente Geisel e perguntou onde eles estavam.

Quando o então presidente venezuelano Carlos Andrés Perez veio ao Brasil,
se encontrou com opositores do regime militar, entre eles Fernando Henrique
Cardoso.

O próprio Lula foi visitado por representantes de outros governos. Fidel
Castro sempre que vinha ao Brasil, depois do restabelecimento de relações
diplomáticas no governo Sarney, reuniase com o PT e uma vez participou de
um comício petista em Niterói.

Estar com representantes da oposição não é se envolver em assuntos
internos, é ouvir todas as partes do país; porque quem é oposição hoje pode
ser governo amanhã; e quem é governo não é dono do país. As relações
permanentes não são com os governantes, mas com os países. Na Venezuela, o
Brasil ficou excessivamente marcado como "amigo de Chávez", a ponto de ter
havido, em 2003, manifestação em frente à embaixada brasileira.

O que nos interessa de forma permanente é uma boa relação com a Venezuela.
O governo brasileiro usa o princípio da não ingerência em assuntos internos
quando lhe convém e para encobrir os abusos de governos dos seus amigos
como Hugo Chávez e Fidel e Raúl Castro. No caso de Honduras, o Brasil disse
que estava atuando em defesa do princípio democrático.

Existe uma forma de conciliar não interferência em assuntos internos com
defesa de princípios e valores democráticos. O governo Lula é que não sabe
achar o ponto de equilíbrio.

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